Duas questões relevantes e interligadas
surgem deste início de ano legislativo: que impacto o controle das duas
Casas legislativas pelo PMDB pode causar sobre a dinâmica política? Mais
especificamente, em que medida ver-se-iam alterados os fundamentos das
relações entre o Executivo e o Legislativo?
É importante assinalar, antes de mais nada, que o cenário que desponta é o de continuidade. As escolhas de Renan Calheiros e Henrique Alves
não resultam de um realinhamento de forças na base governista nem de
movimentos inesperados do chamado “baixo clero”. Tratou-se, nos dois
casos, da consagração de entendimentos entre as lideranças do
Legislativo a respeito de como conduzir o processo político intramuros.
Os parâmetros das relações entre
Executivo e Legislativo tampouco devem sofrer modificação digna de nota.
Presidir uma Casa legislativa conta pouco quando o quadro partidário se
caracteriza pela pluralidade de forças. Nenhuma proposição relevante é
levada a voto sem que os principais parceiros da coalizão dominante
concordem sobre seus termos mínimos. Partidos outros que não o PMDB
controlarão postos de central importância no Legislativo, como é o caso
da presidência de algumas comissões. Isto não quer dizer que o governo
encontrará um contexto de plena calmaria no Congresso. Todavia, não há
motivo para que se espere aumento significativo no grau de conflito de
perspectivas e de interesse entre os dois Poderes do primeiro biênio
para o atual.
Indagação final, igualmente legítima,
diz respeito ao histórico de denúncias de que são alvos os recém-eleitos
presidentes. Diversas preocupações surgem, desde aquelas ligadas à
imagem institucional do Legislativo, até as de ordem mais pragmática,
vinculadas à condução do processo político rotineiro do Congresso.
Difícil especular sobre o que pode ocorrer quando não apenas a dimensão
pública dos personagens da política está em jogo. O que se sabe é que
ambos são parlamentares de longuíssima carreira no Legislativo. Poucos
conhecem tão bem como funciona a atividade parlamentar no Brasil.
Como quase todas as decisões cruciais da
vida, a escolha de líderes importa benefícios e riscos. Os
parlamentares parecem ter optado pelo risco da multiplicação de
denúncias, com as quais estão habituados, do que conceder a prerrogativa
de conduzir o Congresso a parlamentares pouco experientes ou
desprovidos de compromissos seja com a governabilidade, seja com os
interesses vitais dos principais partidos.
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